13/04/2026

O BRASIL DAS ENROLADAS - Número de atestados médicos falsos explode no país O BRASIL DAS ENROLADAS - Número de atestados médicos falsos explode no país




Após receber, em março, três atestados médicos digitais seguidos de uma funcionária em período de experiência, um comerciante de Copacabana, Rio de Janeiro, resolveu investigar. Afinal, ela, no mesmo mês, já tinha apresentado um comprovante escrito à mão para abonar a ausência, e, em fevereiro, faltara ao serviço três vezes. Nos documentos online, o empresário verificou que, no QR Code de validação, não constavam o nome e o CRM da médica responsável que apareciam nos certificados. Acessou, então, o site usado pela jovem, seguiu o passo a passo indicado, e comprou para ele, homem, sem passar por consulta, a dispensa de um dia por “dismenorreia”, termo médico equivalente a uma cólica menstrual intensa.

Diante das evidências, X. — que pediu para não ser identificado com medo de represálias — procurou seu advogado e ingressou na 13ª DP (Ipanema) com uma notícia-crime. Outro empresário, Z., dirigente de um sindicato que representa quase cinco mil indústrias na Região Serrana e Centro Norte do estado, também foi à polícia, no fim de novembro do ano passado. Preocupado com o aumento de 20% dos atestados e informado sobre um número de WhatsApp onde poderia conseguir o documento para justificar ausência no trabalho, fez um teste, usando um chip novo e dados fictícios. Pagou e obteve licenças para duas pessoas, pelos sete dias pedidos, por 70 reais cada uma.

Orientado por um advogado, o comerciante de Copacabana demitiu a funcionária por justa causa, por ato de improbidade. E depositou em juízo os dias que devia a ela.

— Não sou uma pessoa pragmática. Mas, dessa vez, pensei: “não quero saber, vou denunciar”— diz ele.

A funcionária — seu nome é omitido por ainda estar sendo investigada — usou o site Atestado Rápido para obter os documentos.

O processo do site usado por ela é automatizado. Não há consulta online. Além de uma lista de doenças, o usuário pode selecionar a unidade de saúde — incluindo opções como UPA e SUS — e escolher o período de afastamento, com preços entre R$ 39,90 (um dia) e R$ 89,90 (15 dias). Depois de preencher um questionário simples e informar dados pessoais, entre eles o CPF, é direcionado ao pagamento por PIX, com a promessa de que, após a transferência, receberá o atestado. Se a pessoa quer incluir o código da CID (Classificação Internacional de Doenças) paga mais R$ 9,99. Para a anexar a verificação digital com QR Code, são mais R$ 9,99.

A médica cujo nome consta dos três atestados da funcionária e do fornecido ao comerciante conta estar há três anos morando na Itália e exercendo a profissão por meio de telemedicina. Acrescenta que, há dois meses, vem sendo procurada por empresas por causa de atestado falso, fato que comunicou ao Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), porque seu registro é de lá. Foi direcionada a fazer um boletim de ocorrência online, mas ela diz ter dificuldades por viver no exterior.

Redação com sistema globo  /  Imagem ilustrativa:  Reprodução